sexta-feira, 22 de outubro de 2010

CONTRABANDO - APPARÍCIO SILVA RILLO


... Na cozinha, na mesa do jantar, ficamos apenas nós duas... Mamuska e eu. Sóbrias! Juro, completamente sóbrias e com algo em comum... Uma certa utopia, uma saudade nem triste e nem alegre dos prados e campinas verdejantes... Bebemos sim dessa saudade e nos embriagamos nas lembranças. As poesias foram os devaneios...
Assim foi anoite de 20 de setembro na casa de gaúchos que hoje moram no outro lado do Brasil!

CONTRABANDO
Apparício Silva Rillo


Vai o barco de farinha
cruzando o velho Uruguai.

Vaqueano dessas cruzadas
vem na popa um índio moço
manejando o varejão.

Vem atento e vem pensando:
Vou deixar do contrabando,
não é vida pra um cristão.
Hoje eu vim porque o menino
deu sumiço na chupeta
e aquele piá trompeta
saiu louco de chorão...

Sorri o moço da popa
porque no bolso da roupa
traz o bico pro piá.

Ouve um tiro, de repente,
vindo da banda de lá!
Foi tiro de sinal.

Já no mais o tiroteio
se acendeu no macegal,
pipocando seco e feio
como entrechoque de guampas
no entrevero do rodeio
no dia em que se dá sal.

Mala suerte!
O barco vinha chegando,
e a cargo do contrabando
com mais dez braças de rio,
tinha subido a picada,
da picada pra carreta,
e dai pro caminhão.

Ouve um grito de: - Lá fresca,
o Nico se lastimou!
Mas ninguém botou tenência
no sentido deste grito,
porque a coisa vinha preta
sob o tendal de balaços
que a guarda ajena estendeu.

Cada bala que cruzava
debochava de assobio!

Quando o barco deu no porto
no lado de cá do rio,
o pessoal ganhou o mato,
na picada se sumiu.
O barco ficou sozinho
na madrugada e no rio.

Digo mal: ficou o Nico
sobre um saco de farinha
que um balaço espedaçou.
Tinha um lenço maragato
na brancura da farinha
onde o índio se apoiou.

Foi quando a manhã surgiu,
mostrando o sangue do Nico
pingando dentro do rio...

Menino, cala esta boca,
não demora chega o Nico,
vai-te trazer outro bico
que é pra tu não chorar mais.

Veio a manhã, veio a tarde,
veio a boieira luzir.
Veio a noite grande e morta,
A china veio pra porta,
E nada do Nico vir!

Veio um dia,
mais um dia,
veio outro dia depois.

Ao pé de uma lamparina
vela em silêncio uma china
que de chorar se cansou.

Numa cama de pelego
choraminga sem sossego
um piazito babão.

Choraminga! Choraminga!
...Porque o pai não trouxe o bico,
e o que tinha se extraviou...

Nenhum comentário: